
Quem já preparou um hospital para uma avaliação conhece a cena. Faltam três semanas, a equipe de qualidade revisa procedimentos até tarde, alguém descobre que metade dos POPs está vencida e a diretoria pergunta, pela primeira vez no ano, como andam os indicadores.
A avaliação passa. Seis meses depois, a rotina voltou a ser o que era.
Esse ciclo é mais comum do que parece, e ele diz muito sobre como a qualidade costuma ser tratada: como um evento, e não como uma forma de trabalhar.
O tamanho do problema
Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 1 em cada 10 pacientes sofre algum dano durante o cuidado, e mais da metade desses danos poderia ser evitada. Metade dos danos evitáveis está ligada a medicamentos. Na atenção primária e ambulatorial, até 4 em cada 10 pacientes são afetados.
Por trás de cada número há um paciente identificado de forma errada, uma dose trocada, uma queda que ninguém previu, um resultado crítico que não chegou a tempo. E quase sempre há também um profissional que fez o melhor que podia dentro de um processo que não o protegeu.
É por isso que segurança do paciente não depende só de boa vontade. Depende de processo, de dado e de liderança.
Qualidade não é uma pasta de documentos
Um sistema de gestão da qualidade bem implantado é aquele que funciona numa terça-feira qualquer, no plantão da madrugada, com a equipe reduzida. Ele aparece em coisas concretas:
- o técnico de enfermagem confere dois identificadores antes de administrar um medicamento, mesmo com pressa;
- o indicador de quedas é discutido todo mês, e a discussão vira ação;
- o procedimento está escrito do jeito que a área realmente trabalha;
- a notificação de um incidente gera aprendizado, e não punição.
Quando isso acontece, a avaliação externa deixa de ser motivo de pânico. Ela passa a ser a confirmação de algo que já existe.
Quatro perguntas para começar
Não é preciso esperar um projeto de acreditação para dar o primeiro passo. Estas quatro perguntas ajudam qualquer gestor a entender onde a instituição está.
- Sabemos onde estão os nossos principais riscos? Se a resposta depende da memória de duas ou três pessoas, a instituição ainda não conhece seus riscos. Um mapa simples, por área, com probabilidade e impacto, já muda a conversa.
- Medimos o que realmente importa? Muitos serviços acompanham dezenas de indicadores e analisam poucos. Melhor ter oito indicadores com meta, responsável e análise crítica mensal do que trinta planilhas que ninguém abre.
- A equipe sabe por que faz o que faz? Protocolo seguido só na véspera da auditoria é sinal de que o treinamento ensinou a regra, mas não o motivo. Capacitação que funciona conecta a tarefa ao paciente.
- A liderança acompanha de perto? Quando a diretoria só olha para a qualidade perto da avaliação, a equipe entende o recado. Presença nas áreas, perguntas nas reuniões e decisões baseadas em indicadores mostram o contrário.
E a acreditação?
Acreditação ONA, certificação ISO 9001 e acreditações laboratoriais como PALC e DICQ são excelentes referenciais. Elas organizam o caminho, trazem um olhar externo e reconhecem o esforço da instituição. Mas funcionam melhor como consequência de uma gestão bem estruturada, e não como ponto de partida.
O melhor momento para pensar em acreditação é quando as quatro perguntas acima já têm resposta. E o melhor jeito de chegar lá é com um diagnóstico honesto da situação atual.
Um primeiro passo para esta semana
Se as quatro perguntas deixaram mais dúvidas do que respostas, comece pequeno:
- Hoje: peça a cada coordenador que aponte os três riscos que mais preocupam a sua área;
- Nesta semana: escolha um indicador ligado a um desses riscos e defina meta, responsável e fonte de dados;
- Neste mês: leve a primeira análise desse indicador para a reunião da liderança e registre a decisão tomada.
Parece pouco, mas é assim que a qualidade deixa de ser um projeto paralelo e entra na rotina.
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Referências
- Organização Mundial da Saúde. Patient safety (fact sheet). www.who.int